

VITÓRIA, ES — O deputado estadual Sérgio Meneguelli voltou a acionar sua conhecida engrenagem de comunicação nas redes sociais para resgatar uma narrativa que já se tornou seu porto seguro político: a de perseguido pelo "sistema". Em um longo e incisivo desabafo em vídeo, o parlamentar subiu o tom contra supostos boatos e tentativas de minar sua pré-candidatura ao Senado. Contudo, ao adotar um tom de forte vitimização, Meneguelli esbarra em uma contradição de bastidor que enfraquece seu discurso: as principais lideranças do seu partido já se manifestaram publicamente a seu favor.
A estratégia de se colocar como o "Davi contra o Golias" da política capixaba perde força à medida que o deputado evita dar nomes aos supostos algozes que estariam operando contra seus planos. Diante de um cenário onde as portas institucionais estão abertas, a cobrança nos bastidores é clara: se há um boicote, Meneguelli precisa dizer quem, afinal, não quer sua candidatura.
O ponto mais frágil do pronunciamento de Meneguelli é o paradoxo criado por ele mesmo. No próprio vídeo de pouco mais de quatro minutos, o parlamentar faz questão de blindar e listar o apoio dos maiores caciques da sua estrutura política, garantindo que possui o aval de:
Gilberto Kassab (Presidente Nacional do PSD)
Renzo Vasconcelos (Presidente Estadual da sigla)
Paulo Hartung (Ex-governador do Espírito Santo e eminência parda da política local)
Se a cúpula nacional, a liderança estadual e uma das figuras mais influentes do estado já estenderam o tapete vermelho e manifestaram suporte ao seu projeto rumo ao Senado, a tese de "perseguição partidária" perde sustentação fática. Ao garantir que tem a palavra dessas lideranças de peso, o discurso do deputado passa a soar menos como denúncia real e mais como um teatro político para inflamar a militância.
Para analistas e adversários políticos, a postura de Meneguelli configura uma estratégia deliberada de marketing populista baseada na vitimização. Ao se colocar como uma "vítima do próprio sucesso eleitoral" — relembrando o trauma de 2022 quando não disputou o Senado —, ele antecipa uma blindagem contra qualquer cobrança futura, mas se recusa a apontar de onde vem o fogo cruzado.
A cobrança de bastidor: No tabuleiro político capixaba, a retórica do "inimigo invisível" é vista com ceticismo. Se o deputado de fato enfrenta resistências internas ou pressões de blocos rivais da base governista para que "desça" e dispute uma vaga de Deputado Federal, a transparência que ele tanto prega exigiria a revelação de quem são esses articuladores. Sem nomes, a denúncia se esvazia e assume o contorno de mera conveniência eleitoral para manter o eleitorado em estado de alerta e comoção.
Ao final do pronunciamento, Meneguelli reafirmou seu perfil de austeridade, autodenominando-se o "deputado mais econômico do Brasil" e prometendo uma campanha franciscana, baseada no corpo a corpo e em panfletos impressos em preto e branco, rejeitando fundos partidários robustos.
A simplicidade estética da campanha, no entanto, contrasta com a complexidade do jogo político real. Para quem almeja uma das duas vagas ao Senado pelo Espírito Santo, manter o discurso do isolamento e da perseguição — mesmo estando sob a asa protetora de Kassab e Renzo Vasconcelos — pode não ser suficiente desta vez. A militância digital cobra paixão, mas o eleitorado consciente exige clareza: contra quem, afinal, Sérgio Meneguelli está lutando?